



Direção: George A. Romero.
Roteiro: George A. Romero.
Elenco: Simon Baker, John Leguizano, Dennis Hopper, Asia Argento, Robert Joy, Tony Nappo.
Finalmente George Romero, depois de 20 anos do último (Dia dos Mortos), retorna com mais um de seus filmes de zumbis. E dessa vez, tendo ao seu lado avanços tecnológicos que ele nunca teve e que ajudaram bastante no resultado final desse seu novo capítulo da saga dos mortos vivos. Seus protagonistas continuam lentos, mas tão selvagens e carniceiros quanto sempre foram. Diferentemente dos atuais e ótimos filmes do gênero (e que eu prefiro não entrar nessa discussão), os filmes de Romero são muito mais viscerais e violentos. A morte é algo muito mais doloroso e assustador, e isso é um dos maiores méritos dos filmes do Mestre.

A terra continua cada vez mais dominada por Zumbis e os poucos homens que ainda resistem, se encontram confinados em cidades, que se tornaram grandes feudos, cercados por muros e defendidos por pequenos exércitos. No centro da cidade, em uma torre altamente luxuosa, se encontram os ricos, vivendo isolados dos pobres, que moram mais próximos às muralhas. Mantimentos para os vivos são retirados por milícias altamente treinadas e armadas, das cidades dominadas pelas criaturas, que aparentemente pararam com sua busca por carne humana e estabeleceram uma nova rotina de “vida”, onde repetem diariamente o que faziam antes de se transformarem nessas penosas criaturas. Mas as coisas começam a complicar, quando um dos mortos começa a raciocinar, e iniciar uma espécie de revolução. O que muda completamente o aspecto dos filmes anteriores e mostra o grau do amadurecimento de Romero nessa sua obra. Seus mortos não são mais apenas meros selvagens comedores de carne humana, pois se unem, como uma classe, que decide ir a luta para acabar com a opressão, deixando assim de agir apenas por questões de instinto, passando a seguir objetivos. Mesmo que os meios para se alcançar esses objetivos envolvam muitas matanças, membros arrancados, desespero e ódio. É o famoso “os fins justificam os meios”, ou “primeiro a diversão, depois a obrigação” (alteração proposital), utilizados ao pé da letra. Além disso, os mortos aprenderam a utilizar armas em suas matanças, o que os torna mais perigosos (na minha opinião isso foi uma forma de modernizar suas criaturas e assustar mais, já que depois de Madrugada dos Mortos e Extermínio, vimos que Zumbis corredores são bem mais temíveis e perigosos) do que já eram, prova de que Romero percebeu, que em pleno século XXI, não cola mais aquela história do Zumbi lento atacar uma pessoa e matá-la, por essa ter entrado em estado de choque e ter ficado paralisada. Nos anos 60 e 70 do século passado até que vai, mas hoje, não combina mesmo. Além disso, vejo duas falhas graves e gritantes no filme. A primeira é a de como os zumbis começaram a raciocinar, já que devido a própria condição deles, cérebro em decomposição e coisas do tipo, isso não tem nenhuma lógica de acontecer. E mais, como o líder (o tal paizão), que sempre se encontrava na frente dos outros, instigando-os, era maior e mais perigoso do que qualquer um e nunca foi atingido na cabeça pelos inúmeros tiros que destruiram tantos outros zumbis? Mas tudo bem, isso pode ser perdoado.

Dentro dessas milícias, temos o ganancioso Cholo (Leguizano) e o honesto Riley (Baker), que tem concepções completamente diferentes de como tratar os zumbis e sobre a própria vida na cidade. Enquanto Cholo sonha em se mudar para o prédio da elite, Riley pensa apenas em fugir para terras onde o homem nunca habitou, portanto livre de mortos vivos. Mas de longe, o personagem mais interessante do filme, é vivido por Dennis Hopper. Aqui ele é Kaufman, dono da torre onde os ricos vivem e o grande controlador de tudo. Esse personagem representa o papel das elites econômicas e de países ricos perante a bruta e severa realidade de pobreza e miséria que a maior parte do mundo enfrenta. Frases como “você nunca será um de nós” e “não negociamos com terroristas”, são perfeitas representações de como empresas e principalmente países (soco no estômago dos E.U.A.), tratam os mais pobres.
Minha conclusão sobre a obra de Romero, até esse momento, é a de que o homem não é destruído pelos mortos vivos, mas sim por situações originadas por ele mesmo. As mortes, são apenas conseqüências dos atos praticados pelo próprio homem e isso ocorre em todos os outros filmes. A proporção de 4 zumbis para cada ser humano relatada no filme, é um sinal de que os homens estão tendo absoluto sucesso em suas intenções de se auto destruir. A mensagem principal é a de que passamos por uma constante bestialização, por um processo de individualização cada vez mais absurdo, onde em determinado momento, tomando um rumo completamente diferente, os zumbis, nossos algozes e contrapartes, se tornam uno, passando a viver em sociedade e em busca da paz. Mas será que a própria inclusão de um líder (o tal paizão), do lado dos mortos, não é uma mostra de que o ciclo estaria apenas se reiniciando?
Terra dos Mortos é mais do que um filme de terror, pois é também um discurso altamente politizado e um sinal de alerta a sociedade e os rumos que ela toma, com maior intensidade do que os outros filmes da série. Se essa resenha chega a ser, de certa forma, panfletária, é porque o filme também o é.