Nem Todos São Arte

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Cinéfilos


27/11/2005

CONTRA TODOS


Direção: Roberto Moreira.
Roteiro: Roberto Moreira.
Elenco: Leona Cavalli, Sílvia Lourenço, Aílton Graça, Giulio Lopes, Martha Meola, Dionísio Neto, Gustavo Machado, Paula Pretta, Ismael de Araujo.

Esse é com certeza mais um grande feito do cinema nacional. Contra Todos é um filme diferente de todos os já vistos nesses últimos anos. Com pitadas do Cidade de Deus (em relação ao tratamento dado a violência e pela maioria do filme se passar em uma favela, onde moram os seus personagens principais), principalmente devido a influência dos produtores que são responsáveis por ambos os filmes.
Contra Todos parte de um jantar, onde os principais personagens do filmes se encontram todos unidos e em um aparente estado de felicidade. Mas já nesse momento percebe- se a grande diferença entre todos eles, que apesar de estarem constantemente juntos, vivem em uma solidão que às vezes se torna palpável para o espectador. Teodoro (Giulio Lopes) é com certeza o personagem mais fascinante do filme, casado com a fogosa Cláudia (Leona Cavalli), que tem um caso com o vizinho. Ele é matador profissional junto com seu grande amigo Waldomiro (Ailton Graça) e mantém uma relação extra-conjugal com Terezinha (Martha Meola). Além disso, é pai da adolescente rebelde Soninha (Sílvia Lourenço), que no final, se torna amante do seu amigo Waldomiro. A atuação do elenco é com certeza o melhor do filme. A idéia da direção de entregar o roteiro aos atores já durante os ensaios, possibilitando um maior improviso nas falas, deixa as atuações muito mais reais. Dentre o excelente cast, destaco as atuações de Giulio Lopes, que dá vida a Teodoro de uma forma intensa e necessária, sem isso seu personagem, que é de uma complexidade absurda (matador, evangélico e com problemas com as 3 mulheres de sua vida) se tornaria vazio e caricato. Sílvia Lourenço também é outro achado (não lembro deles em nenhum outro filme), interpretando a filha rebelde de Teodoro. O diretor em nenhum momento cai no maniqueísmo, nem busca dar respostas aos comportamentos de A ou B, ele apenas cuida e se preocupa em nos mostrar o dia a dia dessas pessoas, que tem seu clímax nos poucos dias mostrados no filme. Ninguém sai ileso, todos se machucam. Todos “Contra todos”.
Misturando romance, traição, dramas familiares e amizade, o diretor e roteirista Roberto Moreira nos entrega mais um excelente exemplar do nosso atual cinema. Um dos pontos mais fortes do filme, além do roteiro muito bem amarrado e das atuações, é com certeza a utilização do recurso de usar a câmera na mão, pois isso dá um toque de realidade a mais no filme, como se tudo fosse mostrado através de imagens caseiras, onde os próprios personagens filmavam o seu cotidiano. Um olhar avassalador sobre uma família “comum” de periferia, como muitas outras que existem em nosso país.
Imperdível!!!

Arquivado em: — Vladimir @ 7:17 pm

22/11/2005

CIDADE BAIXA







Direção: Sérgio Machado.
Roteiro: Sérgio Machado e Karim Ainouz.
Elenco: Wagner Moura, Lázaro Ramos, Alice Braga, Harildo Deda, Maria Menezes, João Miguel, Débora Santiago, José Dummont.

“Cidade Baixa”, é com certeza mais um passo largo da nossa produção cinematográfica. Com ótimas atuações (destaque para Alice Braga, protagonizando seu primeiro filme), um roteiro excelente e muito bem amarrado, ótima fotografia e direção muito acima da média, esse é mais um que entra na lista dos melhores filmes exibidos e feitos por aqui esse ano.

Filmes como “Cidade de Deus”, “Amarelo Manga” e “Contra Todos”, juntamente com esse, são representantes de um estilo que tem como principal meta, fugir dos estereótipos das cidades perfeitas, dos pontos turísticos e históricos feitos para inglês ver, que servem na realidade como uma intransponível fachada para uma realidade cada vez mais triste e latente. Ao mesmo tempo, existe a preocupação de fugir dos estereótipos pintados principalmente pela mídia, ou seja, da marginalidade, onde na periferia as pessoas se dividem em bandidos e vítimas e nada mais.
Em “Cidade Baixa”, somos de cara apresentados a jovem Karinna (Braga), prostituta, meio menina, meio mulher, que querendo ir embora do interior para Salvador, acaba pegando carona, em troca de sexo, no barco dos amigos de longa data Naldinho (Moura) e Deco (Ramos), iniciando um tórrido e perigoso triângulo amoroso.
A amizade entre os dois é apresentada de uma forma tal, que todos sabemos o nível de cumplicidade de um com o outro. Ao mesmo tempo, o diretor Sérgio Machado sempre deixa latente a competição entre os dois (desde a ordem de quem transará primeiro com Karinna, até relatos da infância dos dois). E é o amor de ambos por Karinna, que ameaça destruir essa amizade.
As atuações de Alice, Lázaro e Wagner, são com certeza pontos altos dentro dos filmes. Os dois atores, também grandes amigos fora das telas, fazem seus personagens com admirável paixão e ajudam bastante a quase estreante Alice Braga a fazer bonito perante eles e suas já grandes experiências. O filme ainda conta com uma pequena participação do, sempre excelente, José Dummont.
Salvador, assim como Recife, Fortaleza, ou até mesmo São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, é mais uma metrópole (ou megalópole) com uma grave e crescente dicotomia social.
Duas Bahias são apresentadas durante o filme. A dos cartões postais, do Mercado Modelo e Elevador Lacerda, sempre mostrada de longe, inatingível aos personagens. E a Bahia da cidade baixa, pobre e cheia dos muitos e já conhecidos problemas sociais e urbanísticos, onde a violência, pobreza e a promiscuidade são partes reais do cotidiano das pessoas e não apenas chocantes matérias de jornais. Local onde a polícia quase nunca é vista e os valores da população são sempre relativizados ou subvertidos. O caos já é parte do cotidiano e a violência já não assusta mais os seus habitantes, convivendo com eles como um vizinho que é visto sem surpresas ou estardalhaços, durante todos os dias.
Um filme imperdível para os admiradores desse mais visceral, contundente e novo cinema nacional.

Arquivado em: — Vladimir @ 6:39 pm

15/11/2005

RATOS EM NOVA YORK
(THE RATS)






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Direção: John Lafia.
Roteiro: Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.
Elenco: Elisa Moolecherry, Mädchen Amick, Vincent Spano, Shawn Michael Howard, Daveigh Chase, David Wolos-Fonteno, Sheila McCarthy.

Um filme de terror Z (categoria que teve que ser criada para a maioria dos filmes exibidos em Tela Quente), exibido pela Rede Bobo em seu horário “nobre”, em plena segunda-feira. Imperdível, não? Com certeza, o que pesou mais para eu ver isso (o filme), foi a minha fobia a essa criatura asquerosa. Assisti-o bravamente, como forma de atacar esse meu distúrbio. Resultado? Quase ganho mais uma fobia. Ao que? Tela Quente, claro.
Aqui, tudo é ridículo. Os protagonistas, os ratos mecânicos super malfeitos (os seus ataques são hilários), o roteiro escrito por um menino de 6 anos e a direção feita pelo amiguinho que ficou com raiva por não poder escrever também e por aí vai.
Como levar a sério um filme que no início tem a progressiva e devastadora doença, seguida de morte de uma personagem por uma mordida desses roedores e no final, a protagonista cai em uma piscina cheia deles, mergulha nos nojentos, é mordida diversas e diversas vezes e sai numa boa, apenas com algumas marcas de mordidas e arranhões. Morreu só porque era figurante? Sacanagem!
Quem perdeu, e tiver curiosidade e coragem de ver, é só aguardar, pois com certeza será novamente exibido.

PS: Sempre tentando se superar, ontem a noite a Globo exibiu em Tela Quente o filme “Dupla Explosiva”. Explosiva como uma bomba, que é o que esse filme protagonizado pelo Antônio Banderas e a Lucy Liu é.

Arquivado em: — Vladimir @ 10:39 pm

12/11/2005

CRASH – NO LIMITE
(CRASH)




Direção: Paul Haggis.
Roteiro: Paul Haggise Robert Moresco.
Elenco: Don Cheadle, Sandra Bullock, Brendan Fraser, Matt Dillon, Jennifer Espósito, Ryan Phillippe, William Fichtner.

O roteirista e agora diretor Paul Haggis, nos entrega uma das mais contundentes e fortes histórias do ano. Depois de escrever o ótimo e principal vencedor do último Oscar “Menina de Ouro”, dirigido por Clint Eastwood, Haggis volta com uma história ainda mais polêmica que a do seu antecessor, a cada vez mais grave e aparentemente sem solução, questão racial norte americana. Para Haggis, o homem urbano (retratado aqui em uma caótica e a beira de ebulição, Los Angeles, mas que poderia ser em qualquer grande cidade ocidental), sofre com o crescente individualismo e falta de contato. “as pessoas se esbarram para forçar um contato”, como fala o policial interpretado por Don Cheadle.
Negros, latinos, asiáticos, árabes, ou qualquer tipo de estrangeiro mais diferente, formam grupos étnicos homogêneos nas visões preconceituosas dos norte americanos “brancos”, ou como em muitos casos, deles próprios.
E o cotidiano se forma, com asiáticos que têm medo de negros, que têm medo dos latinos, que têm medo dos árabes, que juntos assustam os “inocentes” e cada vez mais “assustados” brancos, mesmo sem nenhum motivo pra isso. Um círculo vicioso que aumenta a cada dia e que é mantido tanto pelos opressores, como pela minoria oprimida, que em alguns casos preferem esquecer suas raízes, para se aproximar de padrões supostamente idealizados. Ou então, aceitar e cumprir a risca os seus estereótipos seja em pequenas doses, como na forma de se vestir ou de falar dos negros, ou cumprindo a sua função social dentro desse sistema opressor (negros e latinos = assassinos e ladrões; árabes = terroristas) e excludente por natureza. Mas Haggis em nenhum momento deixa sua história se tornar piegas ou se perder em clichês, como provavelmente muitos outros fariam.E isso, juntamente com as excelentes atuações do elenco, com certeza são alguns dos fatores mais positivos dessa obra.
Traffic, há alguns anos atrás, se tornou na minha opinião, um marco do cinema estadunidense em relação ao seu mercado consumidor de drogas e ao seu eterno e aparentemente infrutífero combate. Crash, então, já nasce como um marco desse mesmo cinema, sobre o racismo.
O filme, apesar de aparentar, não é completamente pessimista. Apesar de Haggis não ter a pretensão de dar soluções a esse terrível drama, ele tem a preocupação de mostrar que por baixo dessa capa natural que temos, ou da riqueza e posição social que possuímos, sempre precisaremos uns dos outros.
Crash é um verdadeiro quebra-cabeça racial e social, onde histórias que parecem distintas, se cruzam em determinados momentos do filme, unindo assim os personagens e mostrando a grande proximidade de todos os casos. Recuso-me a falar de qualquer uma das histórias, pois essa é uma experiência que cada um de vocês deve ter, vendo este, que com certeza é um dos melhores filmes do ano.

PS: Apesar do grande número de atores conhecidos, o orçamento de crash não chegou aos sete milhões de doletas.

Arquivado em: — Vladimir @ 2:37 pm

9/11/2005

A NOIVA CADÁVER (CORPSE BRIDE) e
WALLACE E GROMIT:
A BATALHA DOS VEGETAIS
(THE CURSE OF WERE-RABBIT)




Direção: Tim Burton e Mike Johnson.
Roteiro: Caroline Thompson, baseado em roteiro de John August e Pamela Pettler.
Elenco (Vozes): Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman, Paul Whitehouse, Joanna Lumley, Albert Finney, Richard E. Grant, Christopher Lee.



Direção: Steve Box e Nick Park.
Roteiro: Bob Baker, Steve Box, Mark Burton e Nick Park.
Elenco(Vozes): Peter Sallis, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Peter Kay, Liz Smith, Nicholas Smith, John Thomson.

Depois de alguns anos sem nenhum filme nesse sensacional e belíssimo estilo (stop-motion), recebemos de presente dois deles, e ao mesmo tempo. E mais, um deles realizados por um dos melhores diretores do estilo (Nick Park) e o outro, mais uma realização de um gênio que a cada filme que faz se consolida ainda mais como um dos melhores diretores de sua geração (Tim Burton).



“A Noiva-Cadáver” é a segunda incursão de Burton no estilo de animação quadro-quadro com bonecos (o tal do stop-motion, para as 2 pessoas que estão lendo e não sabem que cargas d’água é isso). O primeiro, é o meio desconhecido, mas tb ótimo “O Estranho Mundo de Jack”, uma espécie de ópera com personagens estranhos e o Papai Noel, todos convivendo juntos em mais um mundo bizarro tirado da cabeça desse ex-animador da Disney. Em “A Noiva-Cadáver”, Burton mostra uma monocromática realidade, com personagens negativos e opressores, que por interesses diferentes, mas todos mesquinhos, obrigam seus tímidos filhos, que nem se conhecem, a se casar. Depois de uma confusão causada por Victor (Johnny Depp) no ensaio do casamento, ele vai até uma floresta e lá, conhece a tal noiva cadáver (Helena Bonham Carter), se prendendo a ela por uma maldição. E é partir desse momento, que Burton mais se solta, apresentando um mundo dos mortos encantador, divertido e alegre e, com o perdão do trocadilho e da repetição, muito mais vivo que o próprio mundo dos vivos. A história é tão bem conduzida e os personagens tão simpáticos, que no decorrer do filme, ficamos em dúvida de qual noiva Victor deve realmente escolher e se realmente não seria melhor “viver” no surpreendente mundo dos mortos. Romance, comédia e suspense nas medidas certas, que com certeza agradará crianças e principalmente a nós, adultos e já fãs do trabalho do diretor.



O segundo filme é o primeiro longa protagonizado pelos personagens Wallace e Gromit (que inclusive já renderam dois Oscar ao diretor em Wallace & Gromit: The Wrong Trousers (1993) e Wallace & Gromit: A Close Chave (1995), ambos curtas de animação) e o segundo realizado pelo diretor Nick Park que eu vi . Nesse, Park coloca o atrapalhado inventor Wallace e o seu fiel cachorro Gromit, em uma enorme confusão. Responsáveis pela proteção das plantações dos ataques dos bonitinhos, mas gulosos coelhos, eles se vêem em maus lençóis após os devastadores ataques de uma misteriosa fera vegetariana gigante, que ataca as preciosas plantações nas noites de lua cheia e ameaça a realização da tradicional feira de vegetais organizada pela rica e bela Lady Tottington (Helena Bonham Carter fazendo a dobradinha). O trabalho de Park tem como únicas semelhanças com o de Burton, a técnica de animação quadro a quadro e a dublagem de Helena Bonham Carter, no mais, são estilos tão diferentes que fica impossível comparar. “Wallace e Gromit” é um filme realmente mais direcionado ao público infantil, mas que logicamente agradará bastante a todas as faixas etárias. Com uma história mais leve e direta que o filme de Burton e personagens simpáticos e engraçados em um ambiente colorido e alegre (mesmo estilo adotado no ótimo “Fuga das Galinhas”), esse, provavelmente, agradará com mais facilidade a criançada.
Possivelmente teremos ambos disputando a categoria de “melhor animação” no Oscar 2006. Agora é só escolher o seu favorito e torcer, torcer muito para que mais filmes assim continuem sendo feitos.

Arquivado em: — Vladimir @ 4:42 pm

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