CIDADE BAIXA

Direção: Sérgio Machado.
Roteiro: Sérgio Machado e Karim Ainouz.
Elenco: Wagner Moura, Lázaro Ramos, Alice Braga, Harildo Deda, Maria Menezes, João Miguel, Débora Santiago, José Dummont.
“Cidade Baixa”, é com certeza mais um passo largo da nossa produção cinematográfica. Com ótimas atuações (destaque para Alice Braga, protagonizando seu primeiro filme), um roteiro excelente e muito bem amarrado, ótima fotografia e direção muito acima da média, esse é mais um que entra na lista dos melhores filmes exibidos e feitos por aqui esse ano.
Filmes como “Cidade de Deus”, “Amarelo Manga” e “Contra Todos”, juntamente com esse, são representantes de um estilo que tem como principal meta, fugir dos estereótipos das cidades perfeitas, dos pontos turísticos e históricos feitos para inglês ver, que servem na realidade como uma intransponível fachada para uma realidade cada vez mais triste e latente. Ao mesmo tempo, existe a preocupação de fugir dos estereótipos pintados principalmente pela mídia, ou seja, da marginalidade, onde na periferia as pessoas se dividem em bandidos e vítimas e nada mais.
Em “Cidade Baixa”, somos de cara apresentados a jovem Karinna (Braga), prostituta, meio menina, meio mulher, que querendo ir embora do interior para Salvador, acaba pegando carona, em troca de sexo, no barco dos amigos de longa data Naldinho (Moura) e Deco (Ramos), iniciando um tórrido e perigoso triângulo amoroso.
A amizade entre os dois é apresentada de uma forma tal, que todos sabemos o nível de cumplicidade de um com o outro. Ao mesmo tempo, o diretor Sérgio Machado sempre deixa latente a competição entre os dois (desde a ordem de quem transará primeiro com Karinna, até relatos da infância dos dois). E é o amor de ambos por Karinna, que ameaça destruir essa amizade.
As atuações de Alice, Lázaro e Wagner, são com certeza pontos altos dentro dos filmes. Os dois atores, também grandes amigos fora das telas, fazem seus personagens com admirável paixão e ajudam bastante a quase estreante Alice Braga a fazer bonito perante eles e suas já grandes experiências. O filme ainda conta com uma pequena participação do, sempre excelente, José Dummont.
Salvador, assim como Recife, Fortaleza, ou até mesmo São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, é mais uma metrópole (ou megalópole) com uma grave e crescente dicotomia social.
Duas Bahias são apresentadas durante o filme. A dos cartões postais, do Mercado Modelo e Elevador Lacerda, sempre mostrada de longe, inatingível aos personagens. E a Bahia da cidade baixa, pobre e cheia dos muitos e já conhecidos problemas sociais e urbanísticos, onde a violência, pobreza e a promiscuidade são partes reais do cotidiano das pessoas e não apenas chocantes matérias de jornais. Local onde a polícia quase nunca é vista e os valores da população são sempre relativizados ou subvertidos. O caos já é parte do cotidiano e a violência já não assusta mais os seus habitantes, convivendo com eles como um vizinho que é visto sem surpresas ou estardalhaços, durante todos os dias.
Um filme imperdível para os admiradores desse mais visceral, contundente e novo cinema nacional.