CABRA CEGA

Direção: Toni Venturi.
Roteiro: Di Moretti, baseado em argumento de Fernando Bonassi, Roberto Moreira e Victor Navas.
Elenco: Leonardo Medeiros, Débora Duboc, Jonas Bloch, Michel Bercovitch, Bri Fiocca.
A ditadura militar estabelecida no Brasil de 1964 a 1985, é um importante e rico capítulo de nossa história ainda mal explorado pelo cinema. Para o bem ou para o mal, as lutas políticas diretas e indiretas que ocorreram no período, sejam elas pró ou contra o repressor governo dos militares, renderam episódios realmente cinematográficos, como o Congresso de estudantes da UNE encerrado a força em Ibiúna; A Guerrilha do Araguaia; O seqüestro de vários embaixadores estrangeiros por pequenos grupos armados; a prisão seguida de morte de históricos combatentes do regime, como Vladimir Herzog e Frei Tito de Alencar; e o exílio forçado de vários artistas e políticos com idéias divergentes, consideradas comunistas. Mas longe desses grandes atos que o cinema sempre prefere, temos o principal, e que vinha sendo deixado de lado até o momento. O papel dos homens e mulheres comuns que lutaram nesse período, entregando suas vida pela causa. “Cabra Cega” preenche formidavelmente um pouco dessa imensa lacuna.
Aos poucos, terminada a ditadura e virando definitivamente essa página de nossa história, temos uma feliz onda de projetos ligados ao assunto, como o filme indicado ao Oscar, “O que é isso companheiro”, “Lamarca” e os mais recentes “Zuzu Angel” e “Cabra Cega”. De todos eles, o último é sem dúvida o de maior qualidade. O filme do bom diretor Toni Venturi e protagonizado pelo ótimo ator, Leonardo Medeiros, tem como foco o período de maior dureza do regime, onde os principais grupos combatentes foram desbaratados e seus combatentes torturados e assassinados. Mas o diferencial de “Cabra Cega”, não se encontra em seu apuro histórico ou por querer justificar qualquer um dos lados (militares ou guerrilheiros). Sua força está em mostrar o lado mais humano da luta, onde pessoas normais eram as responsáveis por tudo o que ocorreu. Nada de bem contra mal, ou de militares quase robôs contra super-humanos amantes da liberdade. São apenas pessoas com ideais completamente diferentes levando ao máximo as suas convicções.
O filme foca-se em Thiago (Medeiros), que após ser perseguido e ferido, é obrigado a esconder-se na casa de um estranho que luta pela mesma causa, mas sem agir diretamente. Rosa (Débora Duboc) é a jovem militante designada por seu grupo para tratar seus ferimentos e ser uma espécie de contato com a liderança da guerrilha. Thiago é obrigado a viver preso, entre quatro paredes, proibido até de olhar pelas janelas, cego ao restante do mundo, como o título do filme. A moça, o jovem arquiteto dono do refúgio e uma senhora idosa moradora do apartamento ao lado, são seus únicos contatos com o mundo exterior. O tempo passa e a agonia de viver confinado e o medo de ser preso, vão aos poucos destruindo a sanidade do personagem, levando-o a cometer erros que podem tornar realidade seus maiores medos.
A direção de Venturi é algo a se destacar. O filme usa e abusa de tomadas de câmera diferentes, cheias de movimentos, o que acaba dando a idéia de claustrofobia sentida pelo personagem principal, além de aumentar a intensidade do filme e a sensação de urgência que o roteiro passa a todo o momento. A trilha sonora é belíssima e extremamente bem colocada, com destaque para as versões das músicas “Construção” e “Roda Viva” do mestre Chico Buarque, assim, aproximando bem, a obra do período retratado. O roteiro muito bem escrito por Di Moretti, com um final instigante, completa esse, que em minha opinião é um dos melhores exemplares de nosso cinema.



