O CÉU DE SUELY
Direção: Karim Aïnouz.
Roteiro: Maurício Zacharias, Felipe Bragança e Karim Aïnouz.
Elenco: Hermila Guedes, Georgina Castro, Maria Menezes, João Miguel.
O céu de Suely é o céu da cidade de Iguatu no interior cearense. Um céu limitado pela pobreza e dificuldades inerentes à grande maioria das pequenas cidades nordestinas e brasileiras. Pobreza e dificuldade que no imaginário popular só podem ser combatidas e vencidas através da realização do sonho da migração aos grandes centros urbanos do país, preferencialmente os situados nas regiões sudeste e sul.
Como milhões de outros brasileiros, a personagem principal do filme de Aïnouz, Hermila, acompanhada de seu parceiro, partem para São Paulo em busca da felicidade. Chegando lá, sofrem com a inesperada e bruta realidade que força o casal, já com um filho, à separação. Hermila tem então, que retornar a sua cidade natal para esperar seu marido, enquanto ele junta dinheiro para colocar um pequeno negócio na cidade. O tempo passa e o sonho do retorno do parceiro e da possibilidade de prosperar na cidade que nasceu se esvai com o abandono do mesmo, e Hermila, que sobrevive com muitas dificuldades vendendo pequenas rifas, decide então, tomar uma drástica medida que lhe dê a possibilidade de mais uma vez abandonar sua cidade e toda a pobreza, atraso (e calor) que ela representa, em busca de seu “santo graal” particular no lado mais desenvolvido do país. Além disso, Hermila tem que resolver situações pendentes em sua cidade natal, como aprender a criar seu filho, o qual ela sempre apresenta uma grande indiferença; fazer as pazes com sua avó, que não aceita as atitudes tomadas pela neta em troca de dinheiro; e resolver a situação com um antigo ex-namorado, que ainda apaixonado, pretende reiniciar uma séria relação com a confusa jovem e assim, prendê-la na cidade.
Karin Aïnouz mostra sua grande versatilidade como diretor ao entregar a seu público esse “Céu de Suely”. Responsável pelo polêmico “Madame Satã”, Aïnouz sai da cidade grande (no caso a capital carioca) e parte para o interior do seu Estado natal, para contar de forma magistral uma das muitas histórias protagonizadas por seu povo. Em Iguatu, o diretor encontra uma cidade diferenciada no Estado, que tem como grande característica uma forte mistura do provincianismo inerente à maioria das pequenas cidades interioranas, com um certo lado cosmopolita evidenciado principalmente pela influência dos inúmeros viajantes que cruzam diariamente a cidade.
A escolha do elenco, formado em sua maioria por atores nordestinos e relativamente desconhecidos do grande público, é, sem dúvida, um dos maiores méritos do filme. A atuação de todos é visceralmente realista e mostra com perfeição todos os sotaques e trejeitos dos habitantes da cidade onde a história se passa, criando um vinculo de realismo ainda maior, o fato dos personagens terem sido nomeados com os nomes verdadeiros de seus intérpretes também foi fundamental para fortalecer ainda mais esse vínculo. A própria Iguatu, pode ser considerada um personagem vivo do filme, já que ela está sempre presente na história, agindo como uma barreira para a felicidade de Hermila, ao mesmo tempo que serve como prisão para sua tia e seu namorado João. Ponto para a belíssima fotografia de Walter Carvalho (impossível não se emocionar com o sensacional plano final do filme).
“O Céu de Suely” é, então, a consolidação multipremiada do trabalho de um grande cineasta já em seu segundo trabalho. E mais, já que ele mostra que o interior do país também pode ser utilizado na criação de filmes urbanos e abre uma série de possibilidades para nossa belíssima atual cinematografia.
PS: Tive uma ligação sentimental muito forte com esse filme, já que morei a maior parte da minha vida em Iguatu e nesse tempo, conheci dezenas de “Hermilas”, homens e mulheres que abandonaram tudo que tinham partindo para os grandes centros urbanos do país, em busca do incerto sonho de encontrar um céu mais estrelado e repleto de possibilidades do que o de sua cidade.