
Direção: Fernando Meirelles.
Roteiro: Jeffrey Caine, baseado em roteiro de John Le Carré.
Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Daniele Harford, Danny Huston, Hubert Koundé, Pete Postlethwaite, Bill Nighy.
O filme “O Jardineiro Fiel” é a ‘feliz’ adaptação do diretor brasileiro, Fernando Meirelles, para o livro homônimo de John Le Carré, escritor especializado em romances de espionagem durante a Guerra Fria.
Que ninguém vá ao cinema esperando assistir a um filme no estilo das últimas atuações de ‘Ralph Fiennes’… em “O Jardineiro” ele está bem longe disso. Também, durante todo o thriller, podemos perceber (principalmente para quem assistiu “Cidade de Deus”) o toque peculiar de Meirelles na direção: a ‘agitação’ das câmeras (vale ressaltar que a película utilizada é a mesma das produções nacionais), a preocupação com a fotografia e os ‘closes’ especiais no rosto dos atores, mostrando sua eterna preocupação em captar as emoções dos personagens. Porém, em “The Constant Gardener”, Meirelles vai bem além disso e expõe que realmente (ótimo!) tem muito a nos mostrar.
Muito provavelmente, ‘O Jardineiro fiel’ não agradará a todos (e parece, também, não possuir essa pretensão). Em alguns momentos possui um ritmo acelerado, não se preocupando em dar explicações ao público. É um romance, sim; mas também trata de questões de política externa, órgãos internacionais defasados (adivinhem qual é o principal???) e a eterna manipulação daqueles que detém o poder sobre os mais fracos.
Quais as conseqüências, quando uma bilionária indústria de remédios, decide realizar suas experiências científicas, alistando voluntários em um dos países mais miseráveis e corruptos do mundo? Um lugar, onde a palavra “sofrimento” possui até uma conotação de alento? Onde as pessoas não vivem… sobrevivem. E ainda conseguem encontrar motivos relevantes para tal, acreditando numa - quem sabe? - possível melhora. Esse é um retrato da população na maior parte da África. E eis que, mais uma vez, assistimos ao grande “jogo” do dinheiro e da “política dos maiores”. E temos a sensação impotente, de o que ficamos sabendo, é somente a ‘ponta do iceberg’!

Justin Quayle (Ralph Fiennes) é um burocrático diplomata inglês, sem muita aspiração de ascensão na carreira. Durante uma palestra, ele conhece Tessa (Rachel Weisz) uma ativista política e idealista, que é a antítese da personalidade de Justin. Os dois iniciam um arrebatador romance, logo estão casados, Tessa grávida (filmes…) e vão morar na África, mais especificamente no Quênia. Embora Justin continue exercendo ‘metodicamente’ seu papel de diplomata britânico (?!), Tessa se engaja nos problemas sociais da região, logo descobrindo que as ‘coisas’ podem ser bem piores do que parecem. Junto com um amigo, médico local, Tessa descobre um impressionante ‘conluio’ de uma indústria farmacêutica - apoiada pelo governo local, por membros da diplomacia britânica, entre outros “poderosos” – que em sua ação, rebaixa a condição humana daquela população a menos do que animais. Nesse ínterim, Justin começa a ter acesso aos boatos sobre infidelidade por parte de Tessa, porém se recusa a acreditar. Por sua vez, Tessa e o amigo médico, vão a fundo na conspiração que descobrem’… e é aí que REALMENTE se dá início à uma grande história.
Vale ressaltar, que a ‘ferida’ que Meirelles ‘toca’ no filme, já foi alvo de escândalo internacional no início da década de 90, justamente na ´frica e em alguns lugares na Ásia. Não é um simples thriller de Hollywood… é o relato de uma situação muitíssimo passível de veracidade. E que Meirelles nos mostra muito bem.
Ao assistir
“O Jardineiro Fiel”, vale a pena ter um pouco de paciência com os primeiros 30/40 minutos de exibição (possui, aproximadamente, 160 minutos de fita) pois o filme “cresce” (e muito) a cada momento, mesmo com as alterações “passado-presente” exibidas a todo instante. Atenção especial à fotografia e à trilha sonora. Ah, em que pese ser uma opinião muitíssimo pessoal (mas críticas sempre são personalíssimas, né?!rs ) Rachel Weiz, mesmo não estando presente em 100% da fita, merece, pelo menos, uma indicação ao “Globo de Ouro”, e Fiennes, no início, irritantemente inglês (ofício do personagem) vai assumindo um perfil simplesmente arrebatador, numa mistura de obstinação,loucura e amor, onde entendemos perfeitamente o porquê dele ser um Jardineiro fiel. Porém, os ‘ladrões de cena” são os figurantes africanos, moradores do povoado local… não deixe de assistir esse filme (eu adorei!). Nem que seja para se certificar, que o Meirelles ainda vai dar muito o que falar em Hollywood!
Flavia Pires
PS: A Flavia é uma grande amiga e colaboradora do Blog Literatura Fantástica. Aceitou o convite de escrever para o NTSA (depois de muita luta), quando descobri que ela viu a avant premier do filme no Festival Internacional de Cinema do Rio. Que sorte a dela não?