O CÉU DE SUELY

7 de dezembro de 2006






Direção: Karim Aïnouz.
Roteiro: Maurício Zacharias, Felipe Bragança e Karim Aïnouz.
Elenco: Hermila Guedes, Georgina Castro, Maria Menezes, João Miguel.

O céu de Suely é o céu da cidade de Iguatu no interior cearense. Um céu limitado pela pobreza e dificuldades inerentes à grande maioria das pequenas cidades nordestinas e brasileiras. Pobreza e dificuldade que no imaginário popular só podem ser combatidas e vencidas através da realização do sonho da migração aos grandes centros urbanos do país, preferencialmente os situados nas regiões sudeste e sul.
Como milhões de outros brasileiros, a personagem principal do filme de Aïnouz, Hermila, acompanhada de seu parceiro, partem para São Paulo em busca da felicidade. Chegando lá, sofrem com a inesperada e bruta realidade que força o casal, já com um filho, à separação. Hermila tem então, que retornar a sua cidade natal para esperar seu marido, enquanto ele junta dinheiro para colocar um pequeno negócio na cidade. O tempo passa e o sonho do retorno do parceiro e da possibilidade de prosperar na cidade que nasceu se esvai com o abandono do mesmo, e Hermila, que sobrevive com muitas dificuldades vendendo pequenas rifas, decide então, tomar uma drástica medida que lhe dê a possibilidade de mais uma vez abandonar sua cidade e toda a pobreza, atraso (e calor) que ela representa, em busca de seu “santo graal” particular no lado mais desenvolvido do país. Além disso, Hermila tem que resolver situações pendentes em sua cidade natal, como aprender a criar seu filho, o qual ela sempre apresenta uma grande indiferença; fazer as pazes com sua avó, que não aceita as atitudes tomadas pela neta em troca de dinheiro; e resolver a situação com um antigo ex-namorado, que ainda apaixonado, pretende reiniciar uma séria relação com a confusa jovem e assim, prendê-la na cidade.
Karin Aïnouz mostra sua grande versatilidade como diretor ao entregar a seu público esse “Céu de Suely”. Responsável pelo polêmico “Madame Satã”, Aïnouz sai da cidade grande (no caso a capital carioca) e parte para o interior do seu Estado natal, para contar de forma magistral uma das muitas histórias protagonizadas por seu povo. Em Iguatu, o diretor encontra uma cidade diferenciada no Estado, que tem como grande característica uma forte mistura do provincianismo inerente à maioria das pequenas cidades interioranas, com um certo lado cosmopolita evidenciado principalmente pela influência dos inúmeros viajantes que cruzam diariamente a cidade.
A escolha do elenco, formado em sua maioria por atores nordestinos e relativamente desconhecidos do grande público, é, sem dúvida, um dos maiores méritos do filme. A atuação de todos é visceralmente realista e mostra com perfeição todos os sotaques e trejeitos dos habitantes da cidade onde a história se passa, criando um vinculo de realismo ainda maior, o fato dos personagens terem sido nomeados com os nomes verdadeiros de seus intérpretes também foi fundamental para fortalecer ainda mais esse vínculo. A própria Iguatu, pode ser considerada um personagem vivo do filme, já que ela está sempre presente na história, agindo como uma barreira para a felicidade de Hermila, ao mesmo tempo que serve como prisão para sua tia e seu namorado João. Ponto para a belíssima fotografia de Walter Carvalho (impossível não se emocionar com o sensacional plano final do filme).

“O Céu de Suely” é, então, a consolidação multipremiada do trabalho de um grande cineasta já em seu segundo trabalho. E mais, já que ele mostra que o interior do país também pode ser utilizado na criação de filmes urbanos e abre uma série de possibilidades para nossa belíssima atual cinematografia.

PS: Tive uma ligação sentimental muito forte com esse filme, já que morei a maior parte da minha vida em Iguatu e nesse tempo, conheci dezenas de “Hermilas”, homens e mulheres que abandonaram tudo que tinham partindo para os grandes centros urbanos do país, em busca do incerto sonho de encontrar um céu mais estrelado e repleto de possibilidades do que o de sua cidade.

FONTE DA VIDA
(THE FOUNTAIN)

3 de dezembro de 2006







Direção: Darren Aronofsky.
Roteiro: Darren Aronofsky, baseado em estória de Darren Aronofsky e Ari Handel.
Elenco: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Marcello Bezina, Alexander Bisping, Ellen Burstyn, Mark Margolis.

A luta contra a morte e o medo que ela manifesta nas pessoas gerou em vários momentos da história da humanidade uma, digamos, quixotesca busca pela imortalidade, seja ela física ou espiritual. Das comunidades mais antigas (que em nenhum momento podem ser chamadas de primitivas) que surgiram em nosso pequeno planeta até hoje, o ser humano vem buscando respostas para profundas questões que na realidade ele ainda nem aprendeu a formular. Para isso, criaram-se centenas de religiões em todo o mundo e em outra frente, surgiram homens que tentam ferrenhamente encontrar na ciência explicações diferentes e mais coerentes que as dadas dentro dos milhares e milhares de templos mundo a fora. A nova OBRA PRIMA (isso mesmo, com letras garrafais) de Darren Aronofsky aborda brilhantemente essa temática. Aliás, essa é uma praia já freqüentada por Aronofsky que já havia trabalhado esse tema em seu primeiro e não menos brilhante filme, PI, onde a Matemática e a Cabala judaica eram os centros da trama.
Em “Fonte da Vida”, Aronofsky conta três histórias paralelas envolvendo o amor e devoção a uma mulher e principalmente uma causa, a de descobrir a forma definitiva de viver e fazê-la viver para sempre. O filme é dividido por três linhas narrativas distintas representadas por um conquistador espanhol no recém descoberto novo mundo a serviço de uma encantadora rainha, um médico em busca da cura de uma terrível doença que consome sua amada esposa nos dias atuais, e por fim, uma espécie de astronauta em busca do sentido da vida, do universo (e tudo mais). Essas narrativas se sucedem a todo instante ao longo do filme, se intercalando em alguns momentos o que mostra a forte ligação entre ambas. Todos os principais papéis são interpretados magistralmente por Hugh Jackman (em seu melhor filme) e Rachel Weisz (em mais um ótimo trabalho).
A linda trilha sonora composta por Clint Mansell acompanha perfeitamente o filme, tornando-se fundamental para o seu desenvolvimento. É como se a música, através de suas lindas melodias e juntamente com os atores, apresentasse toda a angústia, medo, sofrimento e esperança, mas principalmente o forte amor que envolve os personagens. A cenografia é belíssima, um capricho alcançado e posto em prática por Darren através de sua grande inteligência e do bom orçamento conseguido para o filme. A fotografia de Matthew Libatique é, sem dúvida, um show a parte, repleta de planos que lembram bastante as páginas de histórias em quadrinhos (graphic novels), com uma forte predominância da cor amarelo ouro representando a vida e a esperança, contrastando com a sombriedade da maioria dos monocromáticos cenários que representam os sentimentos dos personagens de Jackman. Aronofsky une perfeitamente todos esses elementos através de uma montagem que beira a perfeição, intercalando maravilhosamente uma narrativa a outra.
Enfim, Darren Aronofsky fez um filme, respeitadas as devidas proporções, que lembra substancialmente o que o Mestre Stanley Kubrick fez em seu clássico “2001, uma odisséia no espaço”. Um filme altamente existencialista, de uma profundidade dificilmente vista no cinema hoje em dia, repleto de passagens reflexivas e contemplativas, encerrado por um final absurdamente chocante e maravilhoso (apesar de “2001” ser em sua essência um filme cientificista, enquanto esse possui uma abordagem espiritualista), onde em nenhum momento aparece a intenção do diretor de entregar um final mastigado ao público, pelo contrário, o que temos aqui é mais uma excelente oportunidade de levar o conteúdo do filme para fora da sala de cinema e apreciar essa bombástica experiência cinematográfica muito mais longe da sala escura. A similaridade entre os dois também se encontra na dificuldade do entendimento da história, principalmente se o espectador perder a concentração (o que não é muito difícil) devido a magnífica enxurrada de imagens e informações. “Fonte da Vida” é, então, um dos melhores e mais inteligentes filmes dos últimos anos, que merece ser visto e revisto várias vezes e sempre aplaudido de pé.

PARA LER AS CRÍTICAS DE OUTROS TRABALHOS DE DARREN ARONOFSKY NO NTSA, COMO PI (DIREÇÃO) E SUBMERSOS (ROTEIRO), É SÓ CLICAR NOS CARTAZES DOS RESPECTIVOS FILMES:


VOLVER

30 de novembro de 2006







Direção: Pedro Almodóvar.
Roteiro: Pedro Almodóvar.
Elenco: Penélope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo, Chus Lampreave.

Depois de filmes como “Tudo Sobre minha mãe”, “Fale com ela” e “A má educação”, podemos ver o novo filme do espanhol Pedro Almodóvar como uma pisada no freio em relação às temáticas polêmicas abordadas em seus últimos trabalhos. Para seu mais novo projeto, Almodóvar reúne mais uma vez algumas de suas principais divas (Carmem Maura, Penélope Cruz) para contar a tocante história de uma família de mulheres , que dois anos após perder seus patriarcas em um trágico incêndio, recebe a inesperada visita do fantasma da mãe. A surpreendente chegada da matriarca, coincide com uma série de problemas pelos quais a filha mais velha, Raimunda (Cruz), vem passando com sua filha Paula (Yohana Cobo).
A figura masculina é completamente abandonada nesse filme. Os únicos homens que aparecem na história tem rápida passagem e quase não tem importância para a trama, mostrando que o interesse de Almodóvar é mesmo o seu gênero preferido, as mulheres. Portanto, apesar de Almodóvar ter se distanciado em “Volver” do estilo de seus últimos e melhores filmes, mostra ao seu fiel e apaixonado público que sua ternura e apreço pelo universo feminino continua perfeitamente intacto, criando um belíssimo filme, que com certeza deixará algumas lágrimas emocionadas e um grande sorriso na face do espectador.

VÔO UNITED 93
(UNITED 93)

27 de novembro de 2006







Direção: Paul Greengrass.

Roteiro: Paul Greengrass.
Elenco: Christian Clemenson, Trish Gates, Polly Adams, Cheyenne Jackson, Opal Alladin, Gary Commock, Nancy McDoniel.

Sei que é cedo para fazer essa afirmação, mas depois de ver mais esse filmaço realizado pelo excelente Paul Greengrass (vi na época da estréia, mas não consegui escrever e publicar logo a resenha aqui), não tenho medo de arriscar e dizer que “Vôo United 93” já é o filme mais genial sobre o mega atentado do grupo terrorista Al Qaeda aos Estados Unidos da América no dia 11 de Setembro de 2001. Diferentemente de Oliver Stone, Greengrass foca seu filme completamente no vôo 93 da United Airlines, vôo que tinha como alvo o famoso Capitólio, Congresso Nacional dos E.U.A. e que não atingiu seu alvo devido à tomada e derrubada do avião pelos próprios passageiros do vôo.
Outra grande diferença entre os filmes de Stone e Greengrass é que no do segundo, ambos os lados (terroristas e passageiros) são mostrados em pé de igualdade, sem exageros patrióticos para nenhum dos lados. Greengrass sempre coloca em evidência que se houve algum culpado de verdade, foi a incompetência de todos os órgãos responsáveis pela defesa aérea norte americana, que em nenhum momento mostrou-se preparada para defender o país dos atentados. É só ver a participação da aeronáutica que só disponibilizou caças aéreos com poder de derrubar esse avião, mais ou menos quatro horas após ele já ter caído.
Algo muito interessante a esse respeito, é a forma como os passageiros são mostrados pela mídia, que os apresenta como verdadeiros heróis americanos que deram suas vidas em holocausto para evitar mais um sucesso dos terroristas. Mas o que fica claro em “Vôo 93”, é que esses “heróis” na realidade, queriam apenas preservar suas próprias vidas, e como tinham informações exteriores através de telefones celulares tornando evidente a nefasta intenção dos planos terroristas, decidiram então, tomar medidas extremas em busca de suas salvações o que levou à queda da aeronave. Heróis são aqueles que tomam atitudes extremas com o intuito de ajudar terceiros e não desesperados que fazem qualquer coisa para poupar suas próprias vidas.
O realismo do filme é ainda mais latente devido ao sensacional estilo documental de filmar do diretor, que segue aqui a mesma linha do seu arrebatador “Domingo Sangrento”. Greengrass, além de ter feito todo o seu filme a partir de relatos dos participantes do evento e das ligações dos falecidos para familiares quando eles estavam dentro do avião, o diretor/roteirista aposta novamente em um desconhecido elenco (como também foi feito em “Domingo Sangrento”) para estrelar seu filme, e ainda inclui a participação de pessoas (como os controladores de vôo) que realmente estiveram presentes na desesperada tentativa de salvar os aviões, representando seus próprios papéis. Além de tudo isso, “Vôo 93” possui um dos melhores finais feitos nos últimos anos e mostra que não é com muito dinheiro, mas sim com ótimas idéias e profissionais competentes que se faz cinema de verdade.

PARA LER A CRÍTICA DE “AS TORRES GÊMEAS”, CLIQUE NO CARTAZ DO FILME:



JOGOS MORTAIS 3
(SAW 3)

23 de novembro de 2006





Direção: Darren Lynn Bousman.
Roteiro: Leigh Whannell, baseado em estória de James Wan e Leigh Whannell.
Elenco: Tobin Bell, Shawnee Smith, Angus Macfadyen, Bahar Soomekh.

“Jogos Mortais 3” é uma agradável surpresa para os apreciadores do estilo, já que incrivelmente ele consegue ser tão bom e surpreendente quanto o primeiro exemplar da série, apaga o desastre que foi a segunda parte (tornando-o até um pouco melhor e menos descartável do que é), e principalmente, encerra com maestria a saga de um dos psicopatas mais inteligente e doentios da mais recente e visceral história do cinema de horror.
Para realizar essa façanha, o também diretor do segundo filme, Darren Lynn Bousman e o roteirista de toda a trilogia Leigh Whannel voltam a apostar em uma história mais complexa e inteligente, com uma trama verdadeiramente doentia, onde as armadilhas e desafios criados por Jigsaw (Tobin Bell) e agora sua ajudante Amanda(Shawnee Smith) não são mais os personagens principais da obra (como ocorreu em “Saw 2”), e sim mortais obstáculos para que todos os personagens envolvidos na trama, incluindo o próprio Jigsaw atinjam seus verdadeiros objetivos (exatamente como no precursor da série). Mas para que tudo saia como planejado, a médica Lynn Denlon (Bahar Soomekh) é obrigada a manter o temível psicopata vivo e impedir que o câncer terminal que o consome ceife sua vida antes de uma de suas novas vítimas passar por um de seus jogos mortais.
A direção de Lynn segue o padrão dos outros filmes, repleto de cenas rápidas que tornam o filme ainda mais agoniante. A fotografia também continua bastante semelhante a dos anteriores e as cenas escuras e cenários sujos e sombrios são mantidos e apresentados durante todo o filme.
Para os fãs da série, “Jogos Mortais 3” é sem dúvida um desfecho perfeito para essa trilogia, recuperando o prestígio alcançado no primeiro filme e colocando as peças finais em um impressionante quebra cabeça que vinha sendo montado há muito tempo. Mesmo tendo um quarto filme em produção, ao término desse você verá que esse arco de histórias definitivamente se encerra aqui.

PARA LER AS CRÍTICAS DE JOGOS MORTAIS 1 e 2 É SÓ CLICAR NOS POSTERS DOS FILMES: